Acupuntura Veterinária
Bate-papo com um Veterinário Acupunturista
A acupuntura nunca falha em aliviar a dor de nossa Golden Retriever primogênita. Atacada por outro cão quando tinha apenas dois meses, Sarábi fraturou o rádio, um dos ossos da pata dianteira. A fratura consolidou depressa, mas por estar em fase de crescimento, Sarábi teve complicações que resultaram em uma displasia de cotovelo adquirida. Na época, todos os veterinários ortopedistas que consultamos recomendaram uma cirurgia na tentativa de corrigir o problema. Aos cinco meses, Sarábi foi operada. Mas nos meses subsequentes, ela passou a sentir dor e a mancar. O veterinário que a operou também ficou insatisfeito com os resultados. Prescreveu antiinflamatórios e analgésicos, por tempo indeterminado, para disfarçar a dor e recomendou uma segunda cirurgia ortopédica.
Relutantes em combater a dor de uma filhote com medicamentos agressivos e em submetê-la a uma segunda operação, buscamos a acupuntura, uma terapia que não conhecíamos em primeira mão, mas que há muito nos fascinava por ter operado milagres em cães de amigos nossos. Foi uma decisão acertadíssima! Com poucas sessões, Sarábi voltou a caminhar, correr e saltar como se nada tivesse lhe acontecido! Foi incrível.
Todo mundo que a viu mancando fica incrédulo com sua recuperação! Hoje em dia, vez ou outra ela volta a suspender a pata; coisa que vai embora com uma ou duas sessões das agulhinhas.

À esq: Sarábi, com 5 meses, recém-operada e sem apoiar a pata. À dir: Sarábi hoje (1,5 ano).
E foi assim que nos tornamos entusiastas dessa arte milenar de curar!
Você ainda não conhece a acupuntura veterinária? Confira a entrevista que o renomado médico-veterinário acupunturista, Dr. Ricardo Henrique, concedeu ao Cachorro Verde e descubra o que faz da acupuntura uma terapia eficiente, versátil e absolutamente fascinante!
Cachorro Verde: Por formação, o doutor é médico-veterinário alopata. O que o levou a querer atuar como veterinário acupunturista?
Ricardo Henrique Acho que minha história com a acupuntura foi um tanto diferente do que se espera ouvir. Confesso que, antes de começar a estudar acupuntura, eu pouco conhecia sobre a terapia. Um dia, estava procurando cursos na Internet, e encontrei por acaso um de acupuntura veterinária. A identificação foi imediata, e de forma inexplicável pra mim. Naquele momento eu já sabia que era o que eu deveria fazer.
Depois que comecei a estudar e conhecer melhor, fiquei fascinado em ver como ela se encaixa perfeitamente no tratamento médico convencional, e como ela trata os pacientes de forma integral, e não apenas aquilo que está doente. Além disso, propõe uma mudança de vida, necessária à manutenção da saúde, e o abandono dos vícios e maus hábitos destrutivos. Viver de forma saudável, de forma bem básica, depende de termos moderação e evitarmos os excessos em todas as coisas. Isso mudou tanto a vida de meus pacientes quanto a minha própria vida.
C.V. Em que circunstâncias as pessoas geralmente buscam um médico-veterinário acupunturista?
Ricardo Henrique Muitas vezes contamos com a indicação de colegas médicos veterinários e com clientes que nos buscam espontaneamente por já terem sido tratados de forma bem sucedida pela acupuntura. Outros clientes, curiosos e fascinados por verem resultados em outros animais, procuram a terapia com bastante entusiasmo. Há alguns anos, o acupunturista era tido como o “realizador de milagres”, que entraria em ação depois de tudo que o clínico ou o cirurgião pudesse tentar fazer. Hoje essa visão está mudando. A acupuntura, assim como outras formas de terapia, está deixando de ser rotulada como uma MEDICINA ALTERNATIVA, e está conquistando o título de MEDICINA COMPLEMENTAR. A diferença na designação é essencial para que ela deixe de ser a última alternativa e seja um tratamento a ser integrado a todos os outros tratamentos de que o paciente necessite.
Assim, há cirurgiões e clínicos que, ao deparar-se com um caso, por exemplo, de displasia coxo- femoral, façam a sua avaliação, definam se o caso é cirúrgico, e determinem qual é o melhor momento de iniciar o tratamento com as agulhas. Algumas vezes, o tratamento poderá ser iniciado logo no dia da primeira consulta. Em outros, será iniciado no pós-cirúrgico.
C.V. Quais são os problemas de saúde que o doutor trata com mais freqüência?
Ricardo Henrique Uma vez que os estudos da acupuntura para o controle da dor são bastante desenvolvidos, naturalmente, as doenças que envolvam dor são as principais indicações. Além destas, também há muita procura para as doenças neurológicas (epilepsia, convulsões em geral, seqüelas de cinomose, paralisia facial, AVCs, etc.) e para as doenças osteomusculares (artroses, artrites, displasia coxofemoral,etc.).
Porém, isso seria apenas uma parte das doenças que poderiam ser tratadas pela acupuntura. Embora menos freqüente, é possível tratar doenças hormonais (diabetes, hipotireoidismo, etc.), insuficiências renais, cardíacas, doenças autoimunes, problemas dermatológicos, e até mesmo alguns tipos de câncer.
C.V. O que o proprietário pode esperar do tratamento de doenças crônicas com acupuntura?
Ricardo Henrique Normalmente é possível resolver alguns sintomas de forma mais rápida. Porém, sempre digo que é preciso ter bastante paciência, pois doenças crônicas precisam de um reequilíbrio que pode levar bastante tempo. Muitas vezes, os sintomas que incomodavam o proprietário desaparecem, mas ainda existem outros mais discretos e não por isso menos importantes, e então eles acabam interrompendo o tratamento antes que, de fato, o animal esteja bem.
Outra questão é a de que não existe cura sem mudança de hábitos no dia a dia. As agulhas não podem jamais garantir a cura de, por exemplo, um animal obeso, cuja coluna vertebral sofra a força da gravidade 24 horas por dia. Assim, a colaboração do proprietário para eliminar maus hábitos (como dar petiscos em excesso, no caso), será preponderante para a manutenção da saúde.
C.V. Do ponto de vista do paciente, quais são as vantagens da acupuntura?
Ricardo Henrique A principal vantagem é estar sendo submetido a um tratamento altamente eficaz e de baixo risco. Quando a acupuntura é feita por alguém qualificado, ela não oferece riscos à saúde, nem mesmo efeitos colaterais. Por isso, é possível realizar tratamentos a longo prazo sem maiores preocupações com efeitos adversos.
C.V. O doutor disse “Quando a acupuntura é feita por alguém qualificado, ela não oferece riscos à saúde”. Qualquer profissional médico-veterinário pode ensaiar umas “agulhadas” de acupuntura nos pacientes?
Ricardo Henrique Não seria ético. A Medicina Chinesa é uma ciência milenar, que foi desenvolvida através de muita observação durante milênios. Por isso, não dá para um veterinário se dizer acupunturista com um final de semana ou mesmo uma semana de estudos. Todos sabemos que é preciso responsabilidade ao submeter o paciente a alguma terapia.
C.V. Já tratou distúrbios de comportamento? Poderia citar um caso?
Ricardo Henrique Praticamente toda doença física tem certo comprometimento emocional envolvido, em maior ou menor grau. Pensando sob esse ponto de vista, tratamos inumeráveis casos de comportamento. Mas, pensando naqueles casos em que o aspecto comportamental é o principal problema, podemos ter bons resultados sim.
Lembro de uma Golden Retriever que era bastante submissa e alheia ao ambiente, devido à presença de outro cão extremamente dominante que com ela convivia. A relação entre os dois animais era um problema para eles e para as pessoas que viviam na casa. A melhora foi observada desde o momento em que as agulhas foram retiradas no final da primeira sessão. O semblante da cadela havia mudado, e as atitudes também.
Obviamente, o outro cão também precisou ser tratado e deu mais trabalho. Foi necessário integrar o tratamento de acupuntura com Florais de Bach e adestramento, mas o resultado foi surpreendente. Em menos de um mês, o comportamento dominante apresentou melhora.
C.V. Que espécies de animais o doutor pode atender?
Ricardo Henrique Estou habituado a tratar cães e gatos. Mas, com os mapas de pontos, poderia atender diversas outras espécies também.
C.V. Como está a procura pela acupuntura veterinária hoje em dia?
Ricardo Henrique Há uma procura cada vez maior. Também há muitos médicos veterinários procurando cursos de especialização na terapia, uma vez que eles ficam bastante satisfeitos com os resultados observados. Certa vez fiz a experiência de ligar para algumas clínicas e perguntar se ofereciam o serviço de acupuntura veterinária, e para minha surpresa, TODAS disseram que sim.
A tendência mostra que quem não olhar para essas formas de terapia, num futuro próximo perderá a oportunidade de conquistar muitos bons clientes (não existe cliente ruim na acupuntura, já que todos se preocupam bastante com seus animais).
C.V. É possível associar o tratamento com acupuntura a outras terapias alternativas?
Ricardo Henrique Estamos em uma nova fase nas terapias holísticas. Estamos perdendo o estigma de "alternativos" e conquistando o status de "COMPLEMENTARES". Isso significa muito. É o resultado de uma mudança de comportamento, a abolição do trabalho isolado. Hoje o trabalho em equipe é essencial, e por isso, sim, trabalhar com o que há de melhor em qualquer forma de terapia, visando o bem estar do paciente, pensando que o ambiente em que ele vive influencia seu estado de saúde, é a forma mais viável de se utilizar a acupuntura.
C.V. Imagino que o público leigo tenha muitas dúvidas em relação à acupuntura. Pode nos contar quais são os principais mitos que envolvem essa terapia?
Ricardo Henrique O principal mito da acupuntura é o de que ela é um milagre, que deve ser usado quando mais nada der certo. Essa é a forma errada de utilizar a acupuntura (apesar de, mesmo assim, muitas vezes ela funcionar). Quanto mais demoramos, mais tempo damos para o paciente piorar sua condição de deficiência, e portanto, a recuperação é mais difícil e demorada.
Outro mito é o de que ela é um artigo de luxo e serve para relaxar. Sim, a acupuntura relaxa, mas se pensarmos apenas nesse efeito, estaremos limitando muito as possibilidades da terapia que, como já foi dito, pode tratar com muito sucesso diversas doenças.
C.V. De modo geral, como o clínico-veterinário alopata lida com a acupuntura? Existe ainda muito ceticismo?
Ricardo Henrique O ceticismo é muito menor do que era quando comecei, e está diminuindo cada vez mais. Os médicos veterinários estão percebendo que o acupunturista é um colaborador, alguém que veio dar apoio e trabalhar em conjunto, e não um concorrente ou inimigo do tratamento alopático.
C.V. Se lembra de algum caso no qual o animal foi tratado simultaneamente com alopatia e acupuntura?
Ricardo Henrique Muitos casos são tratados simultaneamente com a alopatia e a acupuntura. Já é provado que, por exemplo, na recuperação de paralisias de membros, a associação da acupuntura com a alopatia traz resultados melhores do que quando tratamos com uma das terapias apenas.
C.V. Quais são as modalidades de acupuntura existentes?
Ricardo Henrique A acupuntura, conceitualmente, consiste em introduzir agulhas no corpo. Mas, como já sabemos que o segredo está no acuponto, ele pode ser estimulado de diversas formas diferentes. Assim, além da "agulha seca", podemos aquecer a agulha, transmitindo então o estímulo mecânico, inflamatório e o térmico, simultaneamente. Também é possível utilizar uma corrente elétrica baixa nas agulhas, chamada de eletroacupuntura. Além dessas técnicas, também são utilizadas as injeções de substâncias medicamentosas no ponto (acuinjeção), o aquecimento (moxabustão), a implantação de fragmentos de ouro, a irradiação de laser de baixa potência, etc.
C.V. Conte-nos um caso de sucesso que de alguma forma tenha sido marcante para você.
Ricardo Henrique Até hoje, não consigo me esquecer da minha querida Sophia! Ela era uma cadelinha da minha família que, em 2005, ficou paralisada das patinhas de trás. Foi um dos primeiros cães que atendi como acupunturista, e apesar de ter tratado outros cães com sucesso antes dela, considero-a meu primeiro grande sucesso.
Em um mês, ela, que só se arrastava e tinha muita dor na coluna, voltou a andar e viver feliz. De 2005 até o final do ano passado, quando veio a falecer por outras causas, ela viveu bem, e jamais voltou a ter que se arrastar. Graças à paciência da Sophia, a quem sou infinitamente grato, tive mais confiança para poder ajudar diversos outros animais. Por isso considero esse o meu caso mais marcante.
C.V. Como o doutor descreveria a situação da acupuntura veterinária no Brasil atualmente?
Ricardo Henrique O Brasil conta com excelentes acupunturistas, devidamente treinados e orientados, e ainda temos muita possibilidade de crescer mais, tanto na qualidade do que já sabemos fazer quanto na busca de novas formas de terapia da Medicina Tradicional Chinesa.
C.V. O doutor conhece a Alimentação Natural para pets? Qual é a sua opinião a respeito desta modalidade de dieta para cães e gatos?
Ricardo Henrique Tive conhecimento da Alimentação Natural através deste site, e gostei muito das informações fornecidas aqui. Por inúmeras vezes, senti a falta de termos pouco (ou nenhum) material sobre balanceamento de dietas naturais para os cães, ou sobre o uso de dietas naturais para casos de doenças especiais. As informações deste espaço certamente irão ajudar muitas pessoas.
Também pude notar as diferenças, por exemplo, em pelagem de animais que se alimentam com dietas naturais, que é muito mais brilhante e viva. Não tem como não perceber a diferença!

Dr. Ricardo Henrique e uma linda paciente Husky Siberiano
Dr. Ricardo Henrique. S. Silva é médico-veterinário. graduado pela Universidade de São Paulo e pós-graduado em acupuntura pela FACIS-IBEHE. É professor do curso de acupuntura veterinária da FACIS- IBEHE desde 2008, e em 2009 fundou a clínica Zen Pet: Medicina Veterinária Complementar, onde seus pacientes são tratados pela acupuntura, fisioterapia, homeopatia, florais de Bach, reiki, quiropraxia, fitoterapia chinesa e balanceamento muscular. A clínica Zen Pet fica em São Paulo, SP, (011) 2308-0040.
Bom apetite e uma lambida do Cachorro Verde!
