Guia de Adaptação para Cães
O processo de mudar a dieta dos cães para a Alimentação Natural desperta dúvidas nos novatos. Isso nos motivou a elaborar uma espécie de “guia do iniciante” com respostas para as perguntas mais freqüentes, além de um “passo-a-passo” para adaptar o pet. Inicialmente, achávamos que a maioria dos cães poderia ser adaptada à nova dieta da noite para o dia, como fizemos com nossos cães. Entretanto, a experiência de muitos leitores nos mostrou que os cães mais sensíveis requerem adaptações bastante graduais. Pensando nesses animais, elaboramos o guia de adaptação que segue abaixo. E que, para evitar episódios desagradáveis, deve ser adotado para todos os cães.

Observação: um razoável entendimento desse tipo de dieta evita a maioria dos erros. Nosso conselho sincero: se você não gosta de ler e de se atualizar periodicamente, evite esse tipo de dieta. Se esse não é seu caso, ótimo. Quanto mais você sabe sobre Alimentação Natural, mais chances a empreitada tem de dar certo!
Vamos lá?
Precauções importantes
Não mude a dieta de cães que passaram recentemente por situações de estresse e/ou desafio imunológico como: vacinação, cirurgia, quimioterapia, mudança de endereço, mudança de proprietário, viagem, chegada de bebê, ou de animais na casa e etc. O melhor a fazer nesses casos é esperar o cão voltar ao seu estado habitual para, aí sim, dar início à adaptação.
Durante as primeiras semanas de introdução da Alimentação Natural procure não submeter o cão a situações desconhecidas ou que promovam estresse como: competições, viagens, acasalamento, vacinação, cirurgia, tratamento médico ou mudanças na rotina, e evite levá-lo para visitar locais que propiciem possíveis infecções como sítios, praias, represas, lagos, e etc.
Vermifugue o cão uma semana antes de introduzir a nova dieta. Evite mudar a alimentação de uma cadela durante a prenhez, especialmente durante o primeiro mês da gestação. Nessa fase, qualquer alteração no organismo pode fazer a cadela perder os embriões.
Em geral, um cão adulto deve comer ao redor de 2,5 a 3,5% de seu peso ideal. Mas não se preocupe tanto: se for o caso, as quantidades podem ser reajustadas mais tarde.
Certifique-se de que os meaty bones e todas as carnes e vísceras foram submetidos ao congelamento em freezer (-18 graus Celsius) por pelo menos 4 dias, a fim de deixar essas peças livres de protozoários e de cistos de helmintos (parasitos intestinais).
Tubérculos (batata, mandioquinha, inhame…), peixes, ovos e grãos devem ser oferecidos sempre cozidos. Obs: mais tarde, quando o cão já estiver habituado à dieta, ovos e peixes poderão ser ofertados crus. Cereais e grãos, entretanto, devem sempre ser cozidos!
Os vegetais que serão oferecidos crus devem ser bem lavados e liquidificados antes de serem oferecidos. (Se preferir, ofereça os legumes cozidos - a exceção são as folhas verdes, que devem ser servidas cruas e liquidificadas).

Tequila, da leitora Carol, espera ansiosa a hora de atacar!
Guia passo-a-passo para introdução da dieta natural
1- Horários
Se seu cão está acostumado a comer ração à vontade durante o dia todo, a primeira providência a tomar deverá ser a determinação de horários para as refeições. Afinal, os alimentos naturais não têm conservantes e portanto não devem ficar fora da geladeira por mais de meia hora.
Em vez de permitir o acesso irrestrito à ração, passe a oferecer apenas duas refeições de ração por dia, uma pela manhã e outra no fim da tarde ou à noite. Faça isso por um período de 1 a 2 semanas para acostumar o cão. Esse processo facilita muito a transição para a Alimentação Natural e corta o mau hábito de “beliscar”, que freqüentemente leva o pet à obesidade. Observação: no caso de filhotes com menos de 6 meses, ofereça três refeições ao dia.
2- Peso Inicial
Pese seu cão e anote. Esse valor servirá como referência para saber se ele emagrecerá, engordará ou manterá o peso com a introdução da nova dieta e possibilitará o reajuste das quantidades se for preciso.
3- Introdução à alimentação crua
No primeiro dia, ofereça as duas refeições do dia compostas por 90% do alimento anterior (ex: ração a que ele está acostumado) + 10% de pescoço de frango cru picado., com pele Observe a reação do cão. Ele comeu sem hesitar? Passou bem? No dia seguinte altere a proporção para 70% do alimento anterior + 30% de pescoço de frango cru picado. Observe as fezes e o comportamento geral do cão. Ele continua comendo toda a porção e não houve mudança na consistência das fezes? No dia seguinte ofereça 50% do alimento anterior + 50% de pescoço de frango cru picado. Se tudo continuar indo bem, sirva no próximo dia 30% do alimento anterior + 70% de pescoço de frango cru picado, e no próximo dia, 10% ração + 90% pescoço cru picado.
ATENÇÃO - É importantíssimo que essa introdução seja feita com pescoço de frango e não com outros cortes/carnes. Não ofereça pés (principalmente), asas, coxas, sobrecoxas, nem carcaças inteiras neste momento.
4- Recusa
Se seu cão se recusou a comer o pescoço de frango cru picado misturado ao alimento anterior, experimente oferecer pescoços ou carcaças de frango crus batidos no liquidificador ou processador de alimentos com um pouquinho de água. Ofereça a dieta anterior ou o alimento anterior junto com essa pasta de pescoço cru triturado respeitando a mesma ordem e as proporções indicadas anteriormente. Misture bem a pasta à alimentação de costume para evitar que o cão selecione o que prefere comer. Quando ele passar a aceitar bem essa pasta e você já tiver retirado todo o alimento anterior da dieta, reintroduza o pescoço de frango cru, desta vez em pedaços, seguindo as mesmas proporções até que ele esteja comendo uma refeição inteira só de pedaços.
5- Reações indesejáveis
Se em algum momento desta introdução seu cão apresentar fezes aquosas ou pastosas, experimente retirar a pele e o excesso de gordura dos pescoços – alguns animais são intolerantes a essa gordura, apesar de ela ser uma parte importante da dieta. Um quadro de fezes amolecidas pode ser normal no primeiro e até no segundo dia da introdução alimentar.
Contudo, em caso de persistência da diarréia ou de aparecimento de vômitos freqüentes, principalmente em jato; disenteria com sangue; febre, prostração ou outros sinais clínicos, suspenda a introdução e leve o animal ao veterinário. Observação: note que vômito não é o mesmo que regurgitação. A regurgitação, - salvo em doenças como megaesôfago ou esofagite – é o processo de “devolver” o alimento após comer. Trata-se de uma reação em geral normal que não decorre de problemas estomacais. O alimento é devolvido sem ter sofrido digestão e é geralmente imediatamente re-ingerido pelo cão. Normalmente acontece quando o cão engole a comida muito depressa e sem mastigar. Já o vômito implica em um ritual. Passado algum tempo desde a última alimentação, o cão procura um cantinho, passa a salivar, apresenta contrações abdominais involuntárias e finalmente expele o conteúdo estomacal (ou intestinal, dependendo do quadro), parcialmente digerido e de odor desagradável. É com os vômitos que devemos nos preocupar.
6- Introdução de novos ingredientes
Se seu cão se adaptou bem à introdução dos meaty bones crus, você pode começar, gradualmente, a introduzir os outros ingredientes da dieta. A primeira refeição do dia deve continuar sendo composta apenas por pescoço de frango cru picado. Para a segunda refeição do dia (jantar), siga a sugestão de modelo básico abaixo:
1o. e 2o. dia: peito de frango cru em cubos + cenoura e mandioquinha cozidas, ou abobrinha + vagem cruas e liquidificadas.
3o. e 4o. dia: peito de frango cru em cubos + cenoura e mandioquinha cozidas, ou abobrinha + vagem cruas e liquidificadas + óleo vegetal
5o. e 6o. dia: peito de frango cru em cubos + cenoura e mandioquinha cozidas, ou abobrinha + vagem cruas liquidificadas + óleo vegetal + iogurte natural
7o. e 8o. dia: peito de frango cru em cubos + cenoura e mandioquinha cozidas, ou abobrinha + vagem cruas liquidificadas + óleo vegetal + iogurte natural + uma lâmina fininha de alho cru (equivalente a 1/7 de um dente)
9o. e 10o. dia: peito de frango cru em cubos + cenoura e mandioquinha cozidas, ou abobrinha + vagem cruas e liquidificadas + óleo vegetal + iogurte natural + auma lâmina fininha de alho cru (equivalente a 1/7 de um dente) + levedo de cerveja
Observe as reações do cão todos os dias. Caso apareça algum sintoma após a introdução de um novo alimento, suspenda o uso do ingrediente suspeito. Por exemplo: se você achar que a cenoura pode ter desencadeado uma reação alérgica, risque-a da lista e ofereça outro legume. Se os sintomas persistirem, consulte um médico-veterinário.
7- Rejeição de ingredientes
Caso o cão rejeite algum dos novos ingredientes acrescidos ao jantar, tente misturar tudo às carnes de forma que ele não consiga comer apenas o que gosta. Se isso não funcionar, acrescente um pouco de caldo de carne, óleo de atum (em conserva) ou aqueça levemente a porção em banho-maria morno (evite microondas).
8- Início das variações
Depois de introduzir os ingredientes citados no passo anterior você pode começar a variá-los. Consulte nosso guia sobre variações e descubra o que pode e o que não pode entrar na dieta. Comece variando os legumes, depois as carnes desossadas e, por último, os meaty bones. Introduza miúdos (fígado, rins, moela, coração), peixe cozido e ovo cozido com ou sem casca. Continue observando as reações do seu cão após a introdução de cada novo ingrediente.
9- Pedaços inteiros (mais ou menos duas semanas após a introdução da nova dieta)
O próximo passo depois de introduzir as variações é passar o cão para meaty bones em pedaços maiores ou mesmo inteiros, de acordo com o porte do animal. Cães de porte grande e gigante podem comer dorsos (carcaças) de frango inteiros, asas inteiras e pescoços com cabeça. Cães médios podem comer dorsos cortados ao meio, asas inteiras e também pescoços com cabeças. Cães pequenos podem comer pescoços inteiros, cabeças e meio de asas (não ofereça ainda a coxinha da asa, que é mais dura). Para saber mais sobre meaty bones, consulte nosso Guia Completo de Meaty Bones.
10- Controle do peso
Pese o cão novamente e compare com o valor obtido na primeira pesagem. Se o cão estava no peso ideal e emagreceu, aumente um pouco a porcentagem (ex: de 2,5 para 3%) e ajuste as porções. Se o cão já apresentava sobrepeso e engordou com a nova dieta diminua um pouco a porcentagem (ex: de 3 para 2,5%) e ajuste as porções.

Cuidado para não exagerar no início!
Perguntas freqüentes:
O que pode acontecer durante a adaptação?
Alguns sintomas normais transitórios podem aparecer durante a adaptação. São eles: regurgitação, mau-cheiro, orelhas sujas, coceiras, fezes amolecidas ou constipação, flatulência e mau-hálito. Mas essa não é a regra. Atribui-se o aparecimento desses sintomas a um processo natural de desintoxicação do organismo que não deve exceder uma semana.
O que NÃO é normal acontecer durante a adaptação?
Caso seu animal apresente vômitos persistentes, em jato ou com sangue, febre, prostração, diarréia com sangue, diarréia líquida, incômodo abdominal, ou a persistência dos sintomas citados na questão anterior, consulte o médico-veterinário.
A nova dieta fará meu cão passar fome?
Devemos ter o cuidado de não confundir fome com desejo de comer (apetite). Ainda mais em se tratando de comida, que em comparação com ração seca, é infinitamente mais saborosa. É preciso entender, antes de mais nada, que a saciedade dos cães é muito diferente da nossa. Na natureza os canídeos freqüentemente ingerem de uma só vez grandes quantidades de comida. A oferta de presas é irregular e os canídeos precisam aproveitar as oportunidades. Assim como seus primos selvagens, os cães são capazes de comer em uma única refeição muito mais do que o necessário para sua manutenção.
Dessa forma não devemos permitir que o insaciável apetite dos cães determine a quantidade de alimentos a oferecer diariamente. Pedir comida para o dono é um hábito que não reflete necessariamente fome. Geralmente é gula ou uma forma de chamar a atenção. Se o cão pede comida e recebe a recompensa esperada, ele entende que o “método” funcionou e passa a repetir a estratégia sempre que tiver a chance.
Esse mau hábito só traz prejuízos. O cão que mendiga à mesa atrapalha as visitas, engorda (pela ingestão calórica excessiva), passa a achar que manda na “matilha” e acaba ingerindo alimentos impróprios para cães, como doces e frituras. A melhor dica é resistir e ignorar os pedidos.
Isso não fará seu cão gostar menos de você. Pelo contrário, reforçará a sua posição de líder da matilha, o que só aumentará o respeito dele por você. Se seu cão pratica muita atividade física, tem um temperamento agitado ou está abaixo do peso você pode oferecer alguns “lanches” durante o dia, como pedaços de frutas, de pães integrais ou uma pequena porção de alguma receita preparada especialmente para ele. Sem exageros, é claro, para não causar desbalanços nutricionais.
Bom apetite e uma lambida do Cachorro Verde!
