Peço que você suspenda pré-conceitos sobre dietas caseiras e embarque comigo em uma reflexão.

* A história que segue é fictícia e deve ser lida como um parábola.

Imagine que os fabricantes de esteiras – sim, aquelas esteiras para exercício – descobriram o potencial do mercado pet. Em pouco tempo, lançam máquinas feitas sob medida para cães. Campanhas e anúncios, seguidos de “artigos científicos”, investem nos seguintes conceitos:

– você não sabe passear com seu cachorro;
– você não passeia com seu cão tanto quanto deveria;
– passeios são abreviados ou suspensos em dias de chuva ou tempo frio;
– passear na rua é uma prática insalubre, que expõe o cão a doenças parasitárias e infecciosas;
– trancos na guia podem prejudicar a coluna de seu cão;
– passear na rua expõe seu cão a brigas e até mesmo ao risco de atropelamento;
– se as pessoas não têm tempo de praticar atividade física e cuidar da própria saúde, quando é que vão arrumar tempo para passear com seus cães?

A solução para todas essas questões é a aquisição de uma esteira. Finalmente, surgiu uma maneira civilizada, moderna, eficiente, segura e prática de garantir que o seu melhor amigo pratique todo o exercício que ele precisa! Passear na rua é coisa de gente atrasada!

Usando de insistência e estratégia, os fabricantes de esteiras vão conquistando o apoio dos veterinários acadêmicos e clínicos-gerais, e dos demais formadores de opinião. Como eles poderiam discordar? Trabalhos científicos  são apresentados e as evidências são convincentes: os cães realmente se expõem a muitos riscos de saúde e perigos passeando nas ruas. Graças aos céus, surgiram as esteiras para cães!

Dentro de poucos anos, o uso da esteira está consolidado entre os tutores de cães, graças ao apoio da maioria dos veterinários, que além de recomendar a esteira como única opção aceitável de exercícios físicos para cães, passam a comercializar as máquinas em seus pet shops. Com tanta expansão, o segmento se sofistica e passamos a encontrar esteiras direcionadas às raças caninas mais populares. Esteiras pequeninas, para Yorkies. Esteiras com amortecimento, para Teckels. Esteiras refrigeradas, para Buldogues Franceses e Pugs.

E lá se vão 10, 20, 30 anos… e ninguém mais se imagina exercitando o cão de outra forma.  E nem quer, afinal, o que pode ser mais prático do que “acoplar” seu cão a um aparelho que garante um exercício constante e seguro?

Eis que surge um grupo de pessoas que começam a questionar a soberania das esteiras. Começam a se lembrar de como viviam os cães na época de seus pais e avós, quando ainda não existiam esteiras para cães. Quando os cães passeavam com seus donos na rua e brincavam com outros cães em parques públicos. Na opinião desses dissidentes, cães exercitados exclusivamente em esteiras parecem apresentar problemas comportamentais que não eram comuns nos tempos da velha caminhada natural.

Esses rebeldes resolvem então retomar os costumes antigos e voltam a passear com seus cachorros nas ruas. Mesmo com os trancos na guia, com as eventuais briguinhas entre cães, com as patas sujas, mesmo sabendo do risco de transmissão de doenças.

Munidas “apenas” de bom senso, essas pessoas passam a receber duras críticas, enfrentando repressões e até ameaças. Seus veterinários agora as tratam com desconfiança, fazendo sermões e atribuindo todo e qualquer problema de saúde que seus pets apresentam às saídas nas ruas.

Passear na rua é coisa de gente desocupada e irresponsável, insinuam conhecidos e amigos. Onde já se viu expôr seu cãozinho a um risco desses? E pra quê – já que há anos contamos com as revolucionárias esteiras de exercícios? Simplesmente não parece valer a pena.

Fim da história.

Agora, substitua as esteiras pelo alimento industrializado, as rações. Os passeios na rua, pelas dieta caseiras. E, finalmente, os “rebeldes”, pelos interessados em oferecer uma dieta caseira aos seus cães. E veja como é fácil se deixar levar por tendências que muitas vezes ferem o bom senso e desconsideram o sucesso das tradições anteriores.

Tutores conscientes arranjam um tempinho para exercitar e estimular seu melhor amigo, seja na rua, no parque ou no quintal de sua casa – ainda que contratem um profissional para fazê-lo. Porque sabem que andar na rua,  respirar ar puro, tomar sol, pisar na grama e cumprimentar outros animais e pessoas, faz um bem danado ao cão. Não se imaginam criando o pet de nenhuma outra maneira. Proporcionar atividade física regular para o peludo faz parte da rotina dessas pessoas, quase como um ato automático.

A coisa funciona de maneira bastante semelhante com a dieta caseira balanceada. Uma grande parte dos adeptos é super ocupada e não cozinha nem para si mesmo. Entretanto, com interesse e paciência, essas pessoas logo pegaram o jeitão da coisa. O fato da dieta natural poder ser 100% crua ajuda bastante. Basicamente, o adepto da AN despende algumas horinhas mensais ou quinzenais para montar e congelar as porções de comida e uns poucos minutinhos por dia para montar e servir as refeições.

Moral da história: com algumas exceções, todo mundo pode praticar Alimentação Natural caseira para seu pet. É só uma questão de priorizar essa importante iniciativa!

Oliver (Sheltie), Leona (Golden) e Coca (Welsh Terrier) no Centro Cinófilo Salatino

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