Desvantagens

Outro dia recebi um e-mail perguntando quais seriam as desvantagens da alimentação natural. De fato, nada na vida apresenta apenas vantagens e a alimentação natural mesmo cheia de benefícios, não é exceção. Não seria justo, portanto, abordar somente as vantagens.

A fim de enumerar as principais desvantagens, me esforcei para me colocar na situação de quem acaba de conhecer a AN. A lista segue abaixo, acompanhada de sugestões para a solução de cada contratempo.

Muita gente diz que a alimentação natural feita em casa não é para todo mundo. Seja como for, sabendo os pró e os contras, você estará mais apto a decidir se essa dieta vale a pena.

Espaço no freezer

A dieta natural é preparada em casa com alimentos crus. Como não tem conservadores e outros aditivos sintéticos, precisa ser armazenada no freezer para não estragar. O congelamento por um mínimo de 5 dias, inclusive, mata muitos parasitas que podem estar na carne.

Não precisa comprar um freezer vertical ou em baú só para seus pets – embora um número considerável de adeptos acabe fazendo isso para facilitar ainda mais a vida. Vai depender muito de quantos cães e gatos você pretende alimentar e do porte deles. Aqui em casa, com três cães (um de porte médio e dois de porte pequeno) e dois gatos de tamanho normal, metade a ¾ do congelador da nossa geladeira é espaço suficiente para guardar comida para 10 dias.

Viagens

O receio de interromper a alimentação natural do cão ou gato em função de viagens é um dos motivos que levam curiosos a não experimentar a dieta. Esse também é o medo de quem é adepto recente. No entanto, existem várias maneiras de garantir que o pet continue comendo a comidinha de sempre. Obtenha algumas dicas com os dois primeiros artigos da nossa seção "Solucionando os Principais Problemas"

Programação periódica

Se você não tiver um freezer inteirinho só para seus pets (eu mesma ainda não tenho), é preciso se programar para não faltar comida. Essa programação depende do espaço no freezer que você pode dedicar ao armazenamento das porções, bem como do número e porte dos seus animais. Para um ou dois gatos ou cães pequenos, de até 5 quilos, metade do congelador é espaço suficiente para mais de um mês de alimentos.

Além disso, quem se preocupa com contaminação das carnes com parasitos deve comprá-las já congeladas ou mantê-las no congelador por um mínimo de 7 dias antes de oferecer ao pet.

A programação periódica também envolve:

  • Definir em gramas ou quilos as quantidades que seus animais receberão de meaty bones, carnes, miúdos, peixes, ovos, legumes e suplementos no período de uma semana, dez dias, quinzenas ou por mês, dependendo dos fatores mencionados anteriormente. (Depois de um tempo, essa lista fica meio que no piloto automático).
  • A ida à feira-livre, supermercado, açougue ou hortifrutigranjeiro onde você vai encontrar e comprar esses alimentos. Uma dica: fazendo amizade com o açougueiro ou feirante você descola ótimos preços para peças de pouca procura, como pés, pescoço e dorso de frango. Costumo ganhar ossos e até aparas perfeitamente comestíveis de filé mignon (e outras carnes) que eles geralmente jogariam fora. Muitos desses estabelecimentos fazem entrega em domicílio. Sem dúvida, aumenta a conveniência.
  • A limpeza da pia e dos utensílios (facas, tábua de carnes, saquinhos plásticos reutilizáveis, tupperwares, balança digital, etc) envolvidos na higiene, separação, corte e pesagem e congelamento dos alimentos.
  • O descongelamento das porções da manhã e da noite, que pode ser feito na parte mais baixa da geladeira por um período de 12 a 24 horas.
  • A oferta das refeições descongeladas. A da manhã, composta por meaty bones, é mais fácil e rápida. A da noite leva em torno de 5 minutos para preparar por pet, porque entram óleo vegetal, iogurte, levedura de cerveja e purê de vegetais, entre outros suplementos opcionais.
  • Garantir a variedade dos ingredientes. Com as carnes isso é fácil, uma vez que elas são congeladas e dessa forma não estragam. Com vegetais, você pode comprar uma certa variedade, já bater em purê no liquidificador e congelar junto com a carne da noite (mais prático), ou manter refrigerados e acrescentar ao jantar batidos na hora (uma opção mais trabalhosa mas mais nutritiva). Se preferir a segunda opção, compre vegetais periodicamente (ex: semanalmente), pois legumes refrigerados há muito tempo perdem os nutrientes.
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Falta de suporte veterinário

Essa, a meu ver, é de longe uma das maiores dificuldades que o adepto brasileiro enfrenta uma vez que opta pela alimentação natural. Poucas coisas são mais chatas do que ligar contente para o veterinário e, ao contar da dieta natural e de como seu cão ou gato está bem e feliz, perceber um silêncio desaprovador ou ouvir uma crítica.

A gente é encarado como tudo: louco, “humanizador de animais”, desocupado, e coisas muito piores. Faz parte. Como tudo na vida, novidades (ainda que alimentar com comida não tenha nada de novo) assustam as pessoas.

A Medicina é uma ciência tradicionalista que tende a rejeitar o que foge à regra. Leia o texto “Veterinários x Alimentação Natural” e entenda os fatores associados a essa rejeição. No mesmo post há sugestão de materiais sobre alimentação natural que você pode repassar ao veterinário com intuito de apresentar e desmistificar essa dieta antes de começar.

De qualquer maneira, não se deixe abater pela desaprovação inicial. Você tem que ser o advogado do seu pet. Se seu veterinário reluta em atualizar seus conceitos de Nutrição de Cães e Gatos, paciência. Você deve se educar e buscar profissionais mais arejados. De qualquer maneira, tenho certeza de que veremos mais e mais profissionais brasileiros simpatizantes a essa tendência.

(Algumas) raças braquicéfalas x ossos

Embora a maioria esmagadora dos Buldogues Franceses, Boxers, Pugs, Bulldogs e outras raças de cães braquicéfalas (de focinho achatado) consigam comer meaty bones (carnes contendo ossos) numa boa, há alguns relatos de engasgos com ossos. Braquicéfalos muito afobados às vezes podem ter dificuldades com essas peças, principalmente com asas e pés de frango.

Para evitar acidentes, recomendo sempre começar oferecendo pescoços de frango que são os meaty bones mais molinhos que existem. Sempre acompanhe seu cão durante as refeições; geralmente eles não demoram mais que dois minutinhos para comer, e você poderá intervir em caso de acidente. É raro, mas há cães que mesmo comendo pescocinhos, podem engasgar.

Para esses casos – ou ainda quando o dono tem receio de arriscar – sugerimos oferecer patê de meaty bones batidos no liquidificador ou processador. É bastante seguro oferecer a peça moída assim, com os ossos triturados. Cães desdentados, gatos que não cresceram comendo peças inteiras, e pets com desordens esofágicas (ex: megaesôfago, uma doença na qual o animal perde o tônus do esôfago) também devem comer patê de meaty bones.

Cheiros de carne crua/sujeira

Pets alimentados com carnes e ossos crus apresentam gengivas e dentes muito mais limpos e saudáveis. Mas ficam com um hálito suave de carne crua. A maioria das pessoas – incluindo a mim – não se importa com isso. Se o cheirinho de carne incomodar, escove os dentes do pet quando achar que deve.

Outra questão é a da sujeira. Tem gente que não experimenta a dieta natural com medo de seu Shih Tzu, Yorkie, Maltês ou outra raça peludinha vir a se sujar comendo purê de legumes ou meaty bones. Aqui temos três cães peludos: um Pastor Australiano, um Pastor de Shetland e uma Dachshund de Pêlo Longo; além de um gato Persa peludíssimo, e posso garantir que eles não se sujam.

Agora, quando ofereço ossos recreacionais, uma vez a cada 10-15 dias, para eles roerem no jardim, aí sim, eles se sujam um pouco. Mas não é nada que uma boa passada de panos umedecidos não resolva! Ou ainda: programe a oferta de ossos de acordo com o dia do mês ou da quinzena em que o pet toma banho.

E para não sujar o chão na hora de servir as refeições? Ofereça a refeição da manhã (meaty bones) sobre superfícies de fácil limpeza, como chão da cozinha, box do banheiro ou área externa. E não adianta esperar que o cão vá consumir a peça dentro do prato. Eles costumam puxar o meaty bone paracomer fora mesmo, às vezes arrastando um pouco a peça pelo chão.

Mas é bem menos sujo do que soa. Assista a um vídeo de um dos meus cães devorando um dorso de frango aqui. Não é nada que um pano com álcool, que mata as bactérias, evapora e tira o cheiro, não resolva. Outra dica é oferecer o meaty bones sobre um tapete plástico e lavá-lo após cada uso. Já o jantar eles comem tudo no prato, sem nenhuma lambança.

Brigas na hora da refeição

Quem já assistiu no Animal Planet uma matilha de lobos ou uma família de leões se alimentando viu que rugidos, grunhidos, rosnados e até mordidas fazem parte dessa dinâmica. Pelos mesmos motivos tentar alimentar um grupo de cães ou de gatos ao mesmo tempo não é boa idéia. Frente a carnes e ossos – comida de verdade – os pets podem se tornar competitivos e briguentos entre si. Mesmo que em todos os outros momentos do dia eles convivam pacificamente.

Defina diferentes lugares da casa para servir o prato de cada animal, ou alimente um por vez. Assim é que fazemos aqui. Parece demorado, mas não leva nem quinze minutos para os três cães e dois gatos comerem na cozinha. Vou chamando um por vez – eles até já conhecem a ordem. Além de evitar brigas, separar os pets impede que um coma a comida do outro.

Resgate dos instintos adormecidos

Na prática, desconheço relatos de que o consumo de uma dieta hiperprotéica com carnes cruas tenha levado a um aumento na agressividade dos pets. Meus cães e gatos continuam os mesmos bobões de sempre. E os cães e bichanos de outros adeptos, até onde sei, também.

Mas uma experiência que posso relatar em primeira mão é que, em especial, os gatos, quando alimentados com carnes cruas, podem resgatar os instintos de caça. Desde que passou a comer comida, meu gato SRD já caçou e matou alguns sabiás e ratos. Até o boboca do meu Persa passou a caçar (e a comer…!) mariposas e mosquitos.

Agora, com relação aos cães não notei muita diferença. Apesar de freqüentemente eles comerem os passarinhos abatidos pelo gato, continuam convivendo muito bem com nosso coelho, que passa grande parte do tempo solto no jardim.

Bom apetite e uma lambida do Cachorro Verde!