Acompanho avidamente as postagens da médica-veterinária norte-americana integrativa Dra. Karen Becker. Ela comanda um site que é imperdível para tutores, veterinários, cuidadores e qualquer profissional que trabalhe com ou simplesmente ame cães e gatos. Se eu tivesse mais tempo, traduziria pra vocês pelo menos uns vinte posts dela. O que me traz a esse artigo.

Em julho de 2016, a Dra. Karen postou um texto tratando do hipotiroidismo canino, uma doença que tenho diagnosticado com alguma frequência na minha rotina clínica. Acontece que eu sou veterinária nutróloga, não clínica-geral, que é o profissional que primeiro deveria solicitar exames de investigação da tireoide dos pacientes. Em medicina humana todo mundo sabe que é super normal o médico solicitar pelo menos o exame de T4 e/ou de TSH rotineiramente mesmo que o paciente não aparente ter disfunção nessa glândula.

Na medicina veterinária a coisa é um pouco diferente. Se o cachorro não aparece na clínica com os sintomas clássicos da doença – gordinho de meia idade, com falhas na pelagem, expressão triste, batimento cardíaco lento e temperatura baixa – a maioria dos colegas jamais pede exame de tireoide. Com isso deixamos de diagnosticar precocemente incontáveis pacientes em estágio inicial de alteração da glândula quando podemos fazer algo a respeito, usando dieta, manejo e nutracêuticos para reverter o quadro.

Um bom exemplo é a Corah, nossa cadela de 7 anos da raça Golden Retriever. Pouco depois de ser castrada, aos 12 meses, ela começou a apresentar despigmentação da trufa (nariz cada vez mais rosado), o que quer dizer que suas células de defesa começaram a atacar as células que produzem o pigmento da trufa, um processo auto-imune frequentemente observado em cães com disfunção tireoidiana. Começamos a notar também manchas úmidas ao redor dos olhos dela, conferindo uma constante expressão cansada e suja. Com o passar dos anos, ela desenvolveu um quadro de indigestão crônica e a região ao redor dos olhos ficava úmida após todas as refeições. A trufa eventualmente ficou totalmente despigmentada e a pelagem da cauda, que antes era tão cheia, começou a ficar rala. Foi aí que me deu um estalo: “a tireoide da Corah não está 100%”. Lembrei de uma aula da faculdade sobre hipotiroidismo, ministrada pela Profa. Dra. Márcia Jericó, ex-presidente da ABEV (Associação Brasileira de Endocrinologia Veterinária). “Cauda fina em cão que já a teve bem peluda pode ser sinal de hipotiroidismo”, dizia ela.

Levei a Corah para fazer exames completos de função tiroidiana e….minhas suspeitas foram confirmadas. A tireoide dela estava toda desregulada. Marquei uma consulta com uma endocrinologista muito respeitada, mas adepta de medicina convencional (ortodoxa). A colega reconheceu as alterações nos exames, mas estranhou o fato da Corah não ter nenhum dos sinais clínicos gritantes do hipo. Pelo contrário, é uma cadela esbelta, ativa e, salvo as dificuldades digestivas, saudável. Comentei com a endócrino uma percepção minha: cães que há anos recebem Alimentação Natural caseira e têm um estilo de vida saudável não adoecem da mesma forma que os cães que recebem ração. Quando ficam doentes, os cães “naturebas” passam bastante tempo em um estado que chamo de “pré-doença”, com o mínimo de manifestações clínicas. O lado bom disso é que em grande parte dos casos podemos agir logo e reverter o quadro antes que a doença se institua de fato. O lado ruim é que diante de um quadro leve e vago muitos veterinários cruzam os braços e esperam o paciente adoecer totalmente para só então diagnosticar e tratar. Quando finalmente agem, a tireoide já está totalmente comprometida.

Logo após a castração, o nariz da Corah começa a perder a pigmentação.

 

Aos 7 anos, Corah tem manchas escuras ao redor dos olhos e nariz bastante despigmentado.

Pois bem. Confira o lindo e informativo artigo escrito pela Dra. Karen Becker e cuidadosamente traduzido e adaptado pela Vanessa Fermino, co-fundadora do Cachorro Verde.

por Dra. Karen Becker (o original você pode ler aqui)

O hipotireoidismo canino é uma condição na qual a glândula tireoide do cão está sub-ativa e não consegue produzir uma quantidade suficiente do hormônio tiroxina para suprir as necessidades do corpo. A tiroxina é um hormônio extremamente importante para o organismo, que desempenha um papel essencial no metabolismo dos alimentos, no crescimento e desenvolvimento físico, no consumo de oxigênio, na reprodução e na resistência a infecções. A tireóide do seu cão é uma pequena glândula em forma de borboleta, localizada no pescoço dele, na base da garganta, com um lóbulo de cada lado da traqueia. E há muitas causas por trás da falência da tireoide.

A tireoide é uma glândula em formato de borboleta. Crédito: http://carolesdoggieworld.com/

Uma dessas causas é uma doença autoimune chamada tireoidite, na qual o organismo ataca os tecidos da glândula tireoide. Para se defender a tireoide primeiro tenta compensar o ataque produzindo mais e mais hormônio tiroxina. Mas depois de um tempo a glândula fica exausta. E é nesse ponto que o seu cão desenvolve os sintomas da doença e é diagnosticado com hipotireoidismo.

Uma outra forma pela qual seu cão pode se tornar hipotireoideu é se a glândula dele começar a encolher com a idade, ou ficar inflamada, produzindo cada vez menos hormônios com o passar do tempo, até eventualmente ela não produzir mais hormônio suficiente para manter os processos biológicos normais. Outras potenciais causas do hipotireoidismo incluem:

  • uso de certas medicações, especialmente corticóides (usados a rodo para controlar alergias e quadros inflamatórios)
  • falta de exercício físico, que pode desempenhar um papel na redução da produção dos hormônios da tireóide
  • exposição a toxinas, incluindo as presentes nas vacinas
  • predisposição racial ou individual

O hipotireoidismo é relativamente raro em cães de porte miniatura e mais comum em cães de porte médio e grande. Machos e fêmeas desenvolvem a doença mais ou menos com as mesmas chances, mas as fêmeas castradas são mais afetadas do que as não castradas. Muitas raças são geneticamente predispostas a essa condição, incluindo:

  • Airedale Terrier
  • Golden Retriever
  • Boxer
  • Greyhound
  • Cocker Spaniel
  • Irish Setter
  • Dachshund
  • Retriever do Labrador
  • Pinscher
  • Schnauzer Miniatura

A maioria dos cães desenvolve o hipotireoidismo entre os 4 e os 10 anos de idade.

Sintomas do hipotireoidismo

Como a baixa atividade da tireóide afeta diversas funções do organismo que dependem da tiroxina, os sintomas da doença variam muito e podem se manifestar de formas muito diferentes de um cão para o outro. Falta de energia, evidenciada por sonecas frequentes, intolerância ao exercício ou perda de interesse em correr e brincar são as principais características do hipotireoidismo. Outros sintomas incluem:

  • Ganho de peso sem aumento no apetite ou na ingestão de calorias
  • Descoloração ou espessamento da pele
  • Baixa tolerância ao frio
  • Infecções crônicas na pele ou nas orelhas
  • Pelagem opaca, seca, frágil, fina ou gordurosa
  • Depressão ou apatia
  • Queda de pelo excessiva ou demora no crescimento dos pelos aparados
  • Baixa frequência cardíaca
  • Pele ressecada e com coceira
  • Alterações significativas de comportamento, como agressividade, ansiedade exacerbada, inclinação da cabeça, comportamento compulsivo, convulsões

Alterações de comportamento podem ser marcadores muito importantes do hipotireoidismo em cães. Por exemplo, a maioria dos meus clientes oferece aos seus cães uma dieta biologicamente adequada, orgânica, fresca e livre de transgênicos. Em cães muito bem nutridos assim muitas vezes os únicos sinais do hipotireoidismo que conseguimos notar são sutis mudanças de comportamento ou da personalidade. Em uma paciente minha que é atleta e tem tireoidite autoimune, o único sintoma era que ela começou a esquecer as sequências da pista de agility e sua performance começou a ficar um pouco mais lenta.

Como você pode ver, existem muitos sinais para observar se você suspeita que seu cão pode ter um problema na tireóide. Infelizmente, a maioria dos sintomas do hipotireoidismo canino não aparece até que 70% da glândula esteja prejudicada.

Diagnosticar o hipotireoidismo canino pode ser complicado

O maior desafio para os veterinários pró-ativos é diagnosticar a doença antes que o cão apareça no consultório com os sintomas da doença em estágio avançado, quando três quartos da sua tireóide já foi danificada. Para complicar ainda mais esse processo, os valores de referência padrão dos laboratórios para o que é considerado normal ou esperado para os hormônios da tireóide não são muito confiáveis. Por exemplo, existe um único valor de referência para cães, não importa a idade ou a raça. Mas cães variam tremendamente em tamanho, de um minúsculo Chihuahua até um gigante São Bernardo, e, obviamente, esses cães não têm o mesmo metabolismo. Como veterinária, eu preciso saber quais são os valores para um cãozinho pequeno que é muito mais ativo e tem um metabolismo muito mais acelerado do que um cão de porte gigante.

Além disso, adotar uma única referência para todos os portes de cães faz ainda menos sentido quando consideramos o efeito da idade nos níveis da tireóide. Animais jovens têm taxas metabólicas mais altas. Animais adultos não estão mais em crescimento, então suas exigências metabólicas são menores.

Perfil de anticorpos tireoidianos versus o teste de T4

Como parte dos abrangentes check-ups de saúde, os veterinários solicitam uma série de exames de sangue, incluindo a dosagem de tiroxina total (T4), que é apenas um dos testes de função da tireóide. Contudo, o resultado do teste de T4 pode ser enganoso porque os níveis de tiroxina também podem ser afetados por doenças não relacionadas à tireóide, por uma variedade de medicações e até por excesso de sódio na dieta. Infelizmente, alguns veterinários tratam pacientes baseado somente nos valores de T4, sendo que isso pode não ser totalmente apropriado, como no caso da doença tireoidiana autoimune.

Minha colega Dra. Jean Dodds, que é uma das maiores autoridades mundiais em doença de tireóide em pets (e autora de um livro imperdível sobre o assunto), acredita que um diagnóstico preciso requer um perfil completo de hormônios e anticorpos da tireóide. Esse teste é bem mais caro que o exame de T4, mas nos informa o que podemos considerar e descartar. Como parte de um perfil completo de função da tireóide, a Dra. Doods inclui a dosagem do T4 livre e do T4 total, assim como de T3 livre e total, que são marcadores para doenças não-tireoidianas. Os valores de T3 são importantes porque, no caso de um animal com valores baixos para todos as 4 dosagens, ele provavelmente sofre de uma doença não relacionada à tireóide. A Dra. Jean Dodds recomenda também um teste de anticorpos de tireóide, que, para a pesquisa inicial, pode ser a dosagem de auto-anticorpos anti-tireoglobulínicos (teste TgAA). Ela não inclui a dosagem do hormônio estimulante da tireóide (TSH) porque ele só é confiável em cerca de 70% das vezes em cães.

Se não for detectada nenhuma doença autoimune, a minha recomendação é a de tentar estimular o que resta do tecido da glândula a funcionar novamente. Se a tireóide do seu cão está só desgastada, é possível regenerá-la usando alguma forma mais natural de reposição hormonal.

Eu gosto de usar extratos glandulares nos estágios iniciais de exaustão da tireóide (leve insuficiência ou resultados limítrofes). Se a tireóide de um cão se aposentou precocemente (quando ela não é mais capaz de produzir nenhum hormônio), então meu próximo passo é instituir glandulares prescritos como Nature-Throid, Thyroid USP, ou Armour Thyroid.

Eu sempre começo com um extrato natural e monitoro a resposta do paciente. Durante essa fase de apoio, outros tratamentos naturais como homeopatia, também podem ser benéficos. Também me dedico à dieta do paciente (particularmente à ingestão de iodo e tirosina) e a redução da exposição do paciente a toxinas ambientais e farmacológicas. É importante que qualquer animal com doença tireoidiana passe por uma minuciosa avaliação do estilo de vida para determinar se há causas externas (relacionadas a toxinas) contribuindo para a falência da glândula.

Em geral, todos os cães com função da tireóide reduzida se beneficiam de receber uma dieta composta por alimentos frescos e não processados. Eles não devem ser vacinados (substitua a aplicação de vacinas por titulação de anticorpos vacinais) e deve ser evitada a exposição desses cães a produtos químicos domésticos (produtos de limpeza, de jardinagem etc). A Dra. Jean Dodds possui um extenso banco de dados com referências de valores laboratoriais. Então eu submeto meus pacientes a dosagens de tireóide no laboratório dela, o Hemolife, porque ele é capaz de comparar os resultados obtidos com os resultados de outros cães da mesma raça e idade.

Lidando com a forma autoimune da doença

Dra. Jean Dodds estima que de 20% a 45% dos cães de determinadas raças (incluindo as citadas acima) desenvolvem tireoidite autoimune. Desses cães, cerca de 8% terão TgAA (níveis de anticorpos antitireoglobulínicos) normais, enquanto os outros 92% vão apresentar níveis elevados. Qualquer cão com um diagnóstico confirmado de tireoidite autoimune deve ser tratado de acordo imediatamente para retardar a progressão da doença. O objetivo é poupar todo o tecido remanescente da tireóide e colocar todo o sistema de estimulação da tireóide em hibernação.

Para esses pacientes, a Dra. Jean Dodds recomenda administrar tiroxina sintética em doses mais baixas que o normalmente indicado para o peso do paciente. Essa dosagem especial evita que o animal desenvolva um hipertireoidismo durante o tratamento. Geralmente leva de 5 a 7 meses para os níveis de TgAA se normalizarem ou ficarem próximos do normal. O tratamento deve continuar por toda a vida do paciente e um perfil tireoidiano completo deve ser feito em intervalos regulares porque os níveis de TgAA podem subir muito se o paciente passar por algum episódio de estresse ou ocorrerem outras mudanças no quadro de saúde.

De acordo com a Dra. Jean Dodds, cães em tratamento com tiroxina devem ser testados depois de 6 a 8 semanas depois de introduzido o tratamento da dosagem de hormônio. Além disso, é muito importante que a tiroxina seja administrada separadamente das refeições ou de outros alimentos ou suplementos que contenham cálcio ou soja. Durante a digestão o cálcio e a soja podem se ligar às moléculas da tiroxina, interferindo no seu efeito.

Amostras de sangue devem ser colhidas de 4 a 6 horas depois da administração do comprimido de tiroxina para a realização das dosagens do perfil tireoidiano. Se, por exemplo, os resultados mostrarem que o paciente é hipotireoideu, mas tem um nível normal de TgAA, ele deve receber o tratamento. Então, dentro de 6 a 8 semanas, outra amostra de sangue deve ser colhida, de 4 a 6 horas depois dele tomar a medicação, mas não é necessário dosar o TgAA dessa vez, dosa-se só o T4 total e T4 livre e o T3 total e livre.

Dra. Dodds reforça que devemos sempre incluir a dosagem de T3 total e T3 livre, junto com o T4 total e T4 livre, mesmo que a recomendação atual seja dosar somente o T4 total para o monitoramento. É importante não fazer uso de produtos naturais para estimular a tireóide, como algas ou fontes naturais de iodo, glandulares, homeopatia e nutracêuticos em casos de tireoidite auto-imune porque, nesses casos a doença vai continuar progredindo se o paciente não receber a tiroxina sintética.

Junte-se ao seu veterinário para prevenir o hipotireoidismo avançado no seu cão

Nos meus atendimentos, eu investigo cada resultado de exame de sangue fora do padrão. Raramente considero normal um resultado fora do padrão. É aí que a Patologia Clínica – o mapeamento de mudanças nos órgãos internos de acordo com resultados de exames de sangue ao longo do tempo – se torna muito importante.

Se eu tenho um paciente cujos níveis da tireóide estão caindo consistentemente de medianos para sub-ótimos, para limítrofes, eu instituo algum suporte glandular adequado antes que a glândula entre em falência completa. Esse é um exemplo de prática da medicina pro-ativa, em vez de reativa. Muitos veterinários esperam não apenas os resultados dos exames se alterarem por completo, como também que o paciente exiba pelo menos 3 dos 6 sintomas clássicos do hipotireoidismo antes de instituir a reposição com o hormônio sintético. Em outras palavras, eles esperam até que o animal desenvolva a doença em estágio avançado antes de implementar o tratamento. Eu sou capaz de ajudar muitos pets a evitar um vida inteira de medicação de tireóide ao detectar a baixa atividade da glândula em um estágio bem precoce.
É por isso que recomendo procurar um veterinário holístico ou integrativo, que esteja aberto a monitorar todos os exames do seu cão, a solicitar o perfil hormonal completo para análise (de preferência pelo laboratório Hemolife), e que possa prescrever glandulares e cofatores (tirosina e iodo) nas dosagens apropriadas para o seu cão.

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