Pukka_s_Promise

Depois de perder para o câncer seu amado companheiro canino Merle, o jornalista e escritor norte-americano Ted Kerasote ficou intrigado com uma dúvida trazida por centenas de leitores simpatizantes à sua dor: por que, afinal, nossos cães vivem tão menos que nós – e por que tantos deles estão morrendo de câncer?

Nada modesta em sua complexidade, a indagação levou Ted a dedicar cinco anos à intensa pesquisa e a viagens por todo o continente norte-americano, além de incursões pelo Canadá, Índia e por diversos países europeus. Concluído o processo, o jornalista nos presenteia com seu Pukka’s Promise – The Quest for Longer-Lived Dogs (algo como “A Promessa de Pukka – A Busca por Cães Mais Longevos”, inédito no Brasil), possivelmente o livro mais importante sobre cães publicado na última década.

As principais questões examinadas pelo autor são:

  • As prioridades (principalmente estéticas) da Cinofilia atual e como elas influenciam negativamente a saúde, o bem-estar e a longevidade dos cães de raça. (Também abordo esse assunto neste artigo.)
  • Quantas e quais vacinas são realmente necessárias para proteger os cães e minimizar os riscos de reações vacinais adversas. Nestes capítulos Ted expõe a prática arbitrária dos reforços anuais para todas as vacinas existentes, conduta ainda vigente no Brasil, apesar de estar cientificamente ultrapassada. (Trato frequentemente desse assunto aqui no blog, que considero de enorme importância.)
  • Qual, afinal, é a dieta mais adequada para promover saúde aos cães. (Dica: as evidências científicas apontadas por ele não favorecem a ração seca à base de milho e soja…). Em capítulos imperdíveis dedicados à nutrição canina, Ted conta os primórdios das rações e como elas conquistaram a confiança irrestrita dos veterinários, visita graxarias (fornecedoras de matérias-primas para rações) e fábricas de rações (convencionais e grain-free, aquelas formuladas sem grãos). Confesso que dei risada em alguns momentos. Como no caso de um email mal escrito reproduzido na íntegra no qual um grande fabricante de petfood “justifica” a farta inclusão de carboidratos em suas fórmulas não em função do baixo preço dessa matéria-prima, mas afirmando que os cães tem amplo requerimento de carboidrato – dado não apoiado por referências científicas.
  • A devastadora, porém silenciosa, contribuição dos contaminantes ambientais carreados pelo vento, borrifados em gramados, presentes em caminhas, brinquedos, na água, em produtos de limpeza, nos alimentos e até mesmo em pipetas anti-pulgas, vermífugos e outros medicamentos de aplicação regular ao surgimento de doenças crônicas nos pets. Ted chegou a enviar brinquedos caninos para análises laboratoriais em busca de substâncias tóxicas, com alguns resultados estarrecedores. Felizmente ele conclui esse capítulo com muitas dicas para minimizarmos a exposição de nossos peludos a toda essa carga prejudicial.
  • De longe o segmento mais polêmico do livro, Ted considera os prós e contras da cirurgia de castração de cães e cadelas de acordo com as evidências científicas da última década, compara o protocolo de castração compulsória de filhotes, amplamente adotado no território americano, com a realidade européia (onde curiosamente há mais cães intactos e, paradoxalmente, muito menos animais abandonados), revela que a remoção das gônadas está associada ao aumento da incidência de certas doenças crônicas e alguns tipos de câncer, e sugere alternativas mais seguras e igualmente eficientes e práticas para controle populacional, como laqueadura ou retirada do útero (os ovários permaneceriam) de fêmeas e vasectomia de machos. (Temos um artigo que discute a questão da castração aqui).
  • As atuais perspectivas de tratamento para o câncer em cães, tanto convencionais como holísticas – e as integradas (que combinam terapias convencionais com as holísticas) e seus prognósticos.
  • O custo para o meio ambiente, computado por especialistas acadêmicos, de alimentar um cão com ração convencional, com dieta caseira à base de carnes e ossos crus de animais variados, dieta caseira à base de caça, e dieta caseira vegetariana, levando em consideração a realidade do autor, que mora em um vilarejo no remoto estado de Wyoming, nos Estados Unidos. Prepare-se para se surpreender. Não revelarei mais sobre o capítulo ou sobre o estilo de vida e hobbies do autor porque espero que você embarque nesse trecho do livro com a cabeça aberta.
  • Como estão sendo geridas as diversas modalidades de abrigos para cães e gatos sem lares nos Estados Unidos, país que ainda eutanasia anualmente mais de um milhão de animais perfeitamente saudáveis e adotáveis. Capítulo indiscutivelmente devastador (Ted descreve uma tarde que passou assistindo a eutanásias em um canil), mas que se encerra numa importante nota otimista.

Também sou formada em Jornalismo (além de Veterinária) e o cuidado do autor com a transmissão dos fatos nada deve a obras jornalístico-médicas ou jornalístico-nutricionais similares, como A Vida Imortal de Henrietta-Lacks, O Dilema do Onívoro (e Em Defesa da Comida, ambos escritos pelo jornalista Michael Pollan) e Anticâncer. Investigando questões tão abrangentes quanto polêmicas, o autor jamais narra suas descobertas como “dono da verdade”, preferindo, como bom jornalista, ouvir todos os lados importantes de cada assunto e consultar o que a literatura científica produziu de conteúdo relevante sobre cada tema.

Este é precisamente um dos motivos pelos quais desejo que todo veterinário – especialmente os estudantes – leia esse livro. E para quem é curioso, as páginas finais fornecem as fontes de pesquisas por trás de cada fato levantado, citando centenas de artigos científicos razoavelmente acessíveis (experimentei procurar alguns e encontrei).

Num âmbito ainda mais pessoal, me emocionei com os relatos dos encontros de Ted com figuras que provavelmente jamais conhecerei ao vivo, mas que me são queridas desde a época da faculdade e que inspiraram (e continuam a inspirar) meus ideais como veterinária. Para citar apenas alguns:

Mas não leia Pukka’s Promise somente por conta das inovações factuais. Leia também para se apaixonar por seu protagonista, o cão Pukka – sim, o do título – o rústico filhote de Labrador por quem Ted empreende uma jornada no mínimo singular. Criado com um respeito à individualidade canina que eu não conhecia, Pukka cresce e se torna um canino adulto autônomo (capaz de entreter a si próprio e de tomar algumas decisões sozinho) e emocionalmente estável, doce e comunicativo.

Elencando os capítulos informativos estão histórias do Pukka (Ted chega a dar uma autêntica voz ao peludo), que conferem uma bem-vinda sensação de refúgio em meio a tanta informação impactante. Com descrições ricas e apaixonadas de sua terra gelada e selvagem, Ted nos transporta às primeiras excursões de Pukka por montanhas, lagos, seus primeiros encontros com bisões, cervos e lontras e as peripécias na companhia de outros cinco cães que vivem totalmente soltos na segurança do paradisíaco vilarejo no Wyoming.

Se eu puder indicar um livro sobre cães para vocês lerem esse ano, é esse. Enquanto o livro não é lançado aqui em português, comprem o original em inglês em versão ebook para tablets ou pela Amazon (foi o que fiz; não há impostos extras para importação de livros para o Brasil).

Fiquem a seguir com alguns trechos do livro que considerei particularmente interessantes (tradução por minha conta):

Cinofilia

“Dois fatores têm contribuído para o fenômeno de certas doenças afetarem algumas raças caninas: o primeiro é o pequeno número de cães que foram usados para fundar essas  raças e em segundo lugar está o número cada vez menor de cães machos que, com o passar do tempo, conseguem contribuir seu DNA para o gene pool (variabilidade genética), uma prática chamada de “síndrome do padreador popular” (“popular sire syndrome”).

Por exemplo, usando informações do The Kennel Club, pesquisadores descobriram que é permitido a apenas 5 por cento dos Golden Retrievers machos no Reino Unido transmitir seus genes.  Pense sobre isso por um instante. Que cara teria a população humana se apenas 5 por cento dos homens pudessem ter filhos? É esse reduzido número de cães reprodutores que estreitou o funil do gene pool e levou a cães que podem ter aparência única, mas que às vezes são funcionalmente aleijados.

(…) Hoje, nos Estados Unidos, 61.4 por cento dos Golden Retrievers morrem de câncer, de acordo com uma pesquisa conduzida pelo Golden Retriever Club of America e pela Purdue School of Veterinary Medicine. Na Grã-Bretanha, uma pesquisa do The Kennel Club encontrou praticamente o mesmo resultado, se considerarmos que aqueles Goldens britânicos – vagamemente diagnosticados como tendo morrido de “velhice” e “doenças cardíacas” e nunca tendo sido  submetidos a uma autópsia – possam, na verdade ter morrido de uma variedade de cânceres, incluindo hemangiossarcoma, um câncer do revestimento dos vasos sanguíneos e do baço.”

 Vacinação

“Foi preciso que quinze anos se passassem para que os pesquisadores compreendessem que a duração da imunidade conferida pelas vacinas é considerada mais longa que qualquer um poderia ter imaginado. Somente no final dos anos 1990 e começo de 2000 que testes de desafio imunológico (vacinar cães e esperar anos para então infectá-los com a doença contra a qual foram vacinados), bem como estimativas de titulações de anticorpos, verificaram a significativa duração de proteção fornecida pelas quatro vacinas caninas primárias, que ficaram conhecidas como “vacinas core” (vacinas essenciais). Descobriu-se que a duração de proteção da vacina contra cinomose  é de nove a quinze anos, dependendo da cepa viral. Para a vacina contra parvovirose, a duração de proteção encontrada é de sete anos; para adenovirose-2, de sete a nove anos, e contra a raiva, sete anos.

O homem por trás de grande parte dessa pesquisa foi o Dr. Ronald Schultz,  um dos imunologistas mais proeminentes do mundo e o diretor do Departamento de Ciências Patobiológicas da Universidade de Wisconsin-Madison. Durante os anos 1970, quando trabalhava na Universidade de Cornell, ele percebeu que os cães que haviam sido vacinados contra cinomose ou que haviam se recuperado desta doença podiam ser afogados em uma tina de vírus da cinomose e não seriam reinfectados. “O cão morreria do afogamento”, ele repetiu, seus olhos azuis brilhando, “mas não contrairia cinomose.”

Contaminantes ambientais

“Um estudo realizado em 2008 em uma clínica veterinária em Virgínia, nos EUA, avaliou a urina e o sangue de vinte cães e trinta e sete gatos atendidos, e estavam lotados de toxinas: os cães carregavam onze carcinógenos (substâncias “cancerígenas”), vinte e quatro neurotoxinas, e trinta e uma substâncias prejudiciais ao seu sistema reprodutor. Os gatos exibiam parâmetros semelhantes. Dois perfluoroquímicos conhecidos como PFCs – aqueles elementos similares ao Teflon encontrados no revestimento anti-manchas e à prova de oleosidade das camas destinadas aos pets e do interior dos pacotes de ração seca – foram encontrados nos cães em níveis 500 por cento mais elevados que em uma pessoa. Cães também apresentaram os produtos da metabolização de quatro ftalatos em níveis variando entre 110 e 450 por cento  mais elevados que em pessoas. No tocante aos PMDEs, os retardantes de fogo éter difenil polibrominato, encontrados em carpetes, mobília e algumas camas para cães, os cães apresentavam 1.700 por cento mais deles que o teor encontrado no cidadão norte-americano comum, e 3.400 por cento mais elevado que a quantidade identificada em homens europeus. Os parâmetros dos gatos estavam tão preocupantes quanto os dos cães em relação ao PFCs e PBMEs, mas não apresentavam a mesma carga de ftalatos derivados de plásticos, um pouco de evidência circunstancial que aponta para o fato de que os cães obtêm mais contaminação por ftalatos de seus brinquedos de roer.

A elevada carga tóxica presente em cães e gatos é resultado de hoje em dia existirem oitenta mil substâncias químicas sintéticas à solta em nosso ambiente. Desde a aprovação do Ato de Controle de Substâncias Tóxicas de 1976 (Toxic Substances Control Act), a Agência de Proteção Ambiental (EPA – Environmental Protection Agency) testou menos de 1 por cento desses oitenta mil químicos para avaliar se trariam riscos à saúde. Em mais de três décadas de vigilância negligente, a agência emitiu regulamentos para controlar apenas cinco desses elementos, quatro deles carcinogênicos e um deles implicado na destruição da camada de ozônio.

(…) O resultado disso é que nós, e nossos cães e gatos, nadamos em um vasto oceano todos os dias de nossas vidas, e nossos animais são muito mais afetados por essas substâncias prejudiciais – cancerígenas, neurotóxicas, e disruptoras do balanço hormonal – que eu ou você. Há dois muito bons motivos para essa maior suscetibilidade dos pets aos poluentes.

Em primeiro lugar, cães e gatos não usam calçados e farejam o solo diretamente. Eles caminham em gramados tratados com herbicidas, e também em ruas pavimentadas que estão cobertas com pesticidas trazidos pelo vento, como fumaça dos automóveis e poluentes industriais carreados pelo ar. Cães e gatos são, então, expostos a essas substâncias uma segunda vez quando as ingerem aos lamber suas patas e pelagem. O outro motivo pelo qual cães e gatos são mais afetados pelo oceano químico que nos rodeia é pelo fato de serem menores que nós. A exposição deles a contaminantes ambientais é maior por quilo de peso corpóreo que em relação a adultos humanos.”

Nutrição

“Não há estudos comparando cães geneticamente similares que tenham sido alimentados com rações à base de grãos e dietas sem grãos por toda a sua vida. Apesar desse furo nas evidências, nós podemos inferir sobre a melhor maneira de alimentar os cães a partir dos muitos estudos que examinaram outros aspectos da nutrição canina.

(…) Pesquisadores da Purdue University´s School of Veterinary Medicine descobriram que Scottish Terriers que consomem folhas verdes e vegetais de coloração alaranjada ao menos três vezes por semana reduziram seu risco de desenvolverem câncer de bexiga em 70 a 90%. A literatura médica humana também reflete esse achado: pessoas que comem vegetais e frutas que contêm fitoquímicos reduzem seu risco de câncer.

Oferecer aos cães uma dieta com menos amido – com menos grãos, com teores de proteína mais elevados, com uma variedade de legumes e verduras – pode ainda trazer dois importantes benefícios. Primeiro, ao reduzir picos de insulina, uma dieta com menor teor de carboidratos reduz a quantidade de (uma substância denominada) “fator de crescimento similar à insulina tipo I”, ou IGF-1, biodisponível.  Níveis mais baixos de IGF-1 tem sido associados a expectativas de vida mais longas em todas as espécies.

Em segundo lugar, uma dieta com baixo teor de carboidratos aumenta o desempenho atlético dos cães. Usando cães puxadores de trenós como objetos de estudo, pesquisadores demonstraram que quando os cães passam de uma dieta rica em carboidratos a uma contendo elevado teor protéico, eles desenvolvem mais hemácias (glóbulos vermelhos), mais hemoglobina, e um V02Max mais elevado – a medida da capacidade de um indivíduo de transportar e usar oxigênio, e portanto uma indicação de performance aeróbica. Os cães também apresentavam níveis mais elevados de cálcio, magnésio, e albumina, elementos que os tornava mais hábeis em suportar o exercício exaustivo. Como benefício adicional, esses cães desenvolveram menos lesões musculares quando passaram à dieta com maior teor de proteína. Finalmente, a alimentação protéica eliminou a coprofagia dos cães – a ingestão de fezes – um comportamento comum de cães alimentados com dietas ricas em carboidratos e que muitas vezes consomem fezes como forma de obter nutrientes que não estão sendo fornecidos pela dieta.

(…) A Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (International Agency for Research on Cancer), um braço da Organização Mundial de Saúde, postula que há evidências suficientes (itálicos deles) de que o conservante BHA, (amplamente empregado em rações secas para pets), é carcinogênico (“cancerígeno”). Também existe limitada evidência da carcinogenicidade (de outro conservante frequentemente utilizado em rações), o BHT.

(…) Mais difícil ainda de evitar são rações preparadas com grãos não-transgênicos, e que não tenham sido borrifados com pesticidas. Nos Estados Unidos, um terço de todos pesticidas agrícolas são aplicados ao milho, e mais de 90 por cento das sojas e 85 por cento do milho cultivados são transgênicos. Essas culturas foram reconfiguradas geneticamente para resistir à aplicação de certos herbicidas e inseticidas, e contêm os resíduos desses componentes tóxicos uma vez que são constantemente borrifados com eles.”

Ted e seu Pukka

Ted e seu adorável Pukka

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