“Por que os pets precisam tomar (muitas vezes 15!) vacinas anualmente, se nós humanos não precisamos tomar as nossas todos os anos?”

“Por que preciso vacinar meu gato contra a raiva anualmente, se ele nunca sai do apartamento?”

“Por que meu pet piora de suas crises – alérgicas, gastrointestinais, epilépticas, etc – horas, dias ou semanas depois que toma suas vacinas?”

“É verdade que nos Estados Unidos muitos veterinários estão aplicando vacinas a cada três anos, e não anualmente, nos cães e gatos?”

Abordar essas questões é abordar o tópico da supervacinação – vacinação excessiva – de cães e gatos. Qualquer pessoa que se interesse por Homeopatia ou Medicina Holística já deve ter ouvido falar nesse assunto. Diversos médicos-veterinários como o norte-americano Richard Pitcairn, PhD em Imunologia, dedicam capítulos à supervacinação em suas obras recentes. Nos Estados Unidos, Europa, Canadá e Oceania, a supervacinação é discutida há mais de uma década. Quer ver? Digite os termos-chave “overvaccination” e “vaccinosis“, acompanhados por “pets” no Google e veja quantos resultados aparecem. No Brasil, infelizmente, as novidades demoram um pouquinho mais a chegar.

Mas estão chegando. Não tenha dúvida.

A partir de hoje daremos início a uma nova sessão no Cachorro Verde. Para reduzir a polêmica e facilitar a assimilação racional do assunto, postaremos trechos de livros  e artigos científicos recentes escritos por médicos-veterinários,  profissionais da área de saúde, e pesquisadores. Você vai entender porque muitos veterinários favoráveis à Alimentação Natural, no mundo todo, afirmam que, mais importante até que oferecer uma boa dieta caseira para os pets, é reduzir a quantidade de vacinas aplicadas.

Leia abaixo um artigo científico escrito pela médica-veterinária norte-americana Jean Dodds, que há décadas pesquisa sobre o assunto da supervacinação. E não perca os próximos textos dessa nova seção.

Reações vacinais adversas
Clique aqui para ler o artigo original, em inglês.
Autora: W. Jean Dodds, DVM
Hemopet/Hemolife
2008

(Tradução: Sylvia Angélico)

As doenças virais e vacinações recentes com vacinas monovalentes ou múltiplas com vírus vivos modificados, principalmente as que contêm o vírus da cinomose, adenovírus 1 e 2, e parvovírus têm sido cada vez mais reconhecidas como fatores que contribuem para o desenvolvimento de doenças sanguíneas imune-mediadas, insuficiência da medula óssea e disfunção de órgãos (1-11).

Vacinas com vírus mortos e com adjuvantes potentes (substâncias químicas que irritam o sistema imune para provocar uma resposta melhor) como as anti-rábicas também podem desencadear reações vacinais adversas (vacinoses) imediatas ou tardias (7-10). Predisposição genética a essas desordens em humanos tem sido associada ao antígeno leucocitário D – relacionado como sendo o locus gênico do complexo de histocompatibilidade principal, e é provável que existam associações paralelas com os animais domésticos (5, 7).

Além das reações de hipersensibilidade imediatas, outros eventos agudos tendem a ocorrer de 24 a 72 horas após, ou em 7-45 dias depois em uma resposta imunológica do tipo tardia (1-4, 6-10). Outros efeitos adversos tardios incluem: mortalidade por vacinas de sarampo de altas concentrações em crianças, anticorpos de cinomose nas doenças articulares dos cães, e o aparecimento de fibrossarcomas (tipo de câncer maligno) em felinos e caninos no local de aplicação da vacina (5, 7). A carga antigênica cada vez maior que é apresentada ao hospedeiro por vacinas com vírus vivos modificados durante o período de viremia (quando o vírus cai na circulação sanguínea) é presumidamente responsável pelo desafio imunológico que pode resultar em uma reação de hipersensibilidade tardia (2, 3, 6, 7).

Os sinais clínicos associados com reações vacinais tipicamente incluem: febre, rigidez, articulações doloridas, sensibilidade abdominal, susceptibilidade a infecções, desordens neurológicas e encefalites, hemácias auto-aglutinadas e icterícia (anemia hemolítica auto-imune – AHAI), ou petéquias generalizadas e hemorragias equimóticas (trombocitopenia imune-mediada – TIM) (1, 2, 4, 7, 8, 12, 13). As enzimas hepáticas podem ficar muito elevadas, e insuficiência hepática ou renal podem ocorrer por si só ou acompanhadas de supressão da medula óssea.

Além disso, vacinação com vírus vivos modificados tem sido associada com o desenvolvimento de convulsões transientes em cães filhotes e adultos de raças ou mestiços de raças susceptíveis a doenças imune-mediadas, especialmente aquelas que envolvem tecidos endócrinos ou hematológicos (AHIM, tireoidite auto-imune potencial, púrpura trombocitopênica idiopática, etc) (1, 7, 10). A polineuropatia pós-vacinal é uma enfermidade reconhecida, ocasionalmente associada ao uso das vacinas contra cinomose, parvovirose, raiva, e presumidamente, outras vacinas (2, 3, 7).

Isso pode resultar em vários sinais clínicos, incluindo atrofia muscular, inibição ou interrupção do controle neuronal de tecidos e da função de órgãos, excitação muscular, descoordenação e fraqueza, bem como convulsões (7). Certas raças ou famílias de cães parecem ser mais susceptíveis a reações vacinais adversas, particularmente as convulsões pós-vacinais, febres altas, e episódios dolorosos de osteodistrofia hipertrófica (ODH) (7,9). Portanto, temos a responsabilidade de orientar os criadores de animais de companhia e proprietários do risco que os irmãos de ninhada geneticamente predispostos e animais aparentados têm de apresentar reações vacinais adversas similares (1,4,6,9,14,17). Animais de raças populares (ou raras) que sejam fruto de acasalamentos consangüíneos ou dentro da mesma linhagem (linebreeding), em geral podem apresentar risco aumentado, conforme ilustrado nos exemplos abaixo.

Vacinas comerciais podem, em raras ocasiões, estar contaminadas com outros agentes virais adventícios (3, 15), que podem produzir significativos efeitos prejudiciais, conforme ocorreu quando uma vacina comercial contra a parvovirose canina estava contaminada com o vírus da língua azul. A vacina provocou aborto e morte quando aplicada a cadelas gestantes (15), o que foi associado causalmente à prática contra-indicada, mas muito freqüente, de vacinar animais prenhes. O risco de efeitos colaterais como a promoção de estados de doenças crônicas nos cães machos e em fêmeas não-gestantes recebendo esse monte de vacinas continua indeterminado, embora tenha havido relatos casuais de redução de vigor físico e disfunção renal em cães de trenó (17).

Recentemente, um fabricante de vacinas teve de reconvocar (recall) todos os seus produtos biológicos que continham um componente de cinomose, porque tais vacinas estavam associadas a uma taxa maior do que o esperado de reações pós-vacinais do sistema nervoso central de 1 a 2 semanas após a administração (17).

Foi comprovado recentemente que a vacinação de cães de estimação e de pesquisa com vacinas polivalentes contendo o vírus da raiva, ou somente com a vacina da raiva induziu a produção de auto-anticorpos anti-tireoglobulínicos, um achado importante que pode estar implicado no desenvolvimento subseqüente do hipotireoidismo (10).

Em relação à supervacinação, surgem outras questões que precisam ser consideradas, apesar da solicitação bem-intencionada dos clientes para que os reforços vacinais anuais sejam feitos de modo que os pets assim recebam um exame de check-up geral (6). A aplicação de reforços vacinais anuais quando eles não são necessários implica no cliente pagar por um serviço que provavelmente trará pouco benefício ao nível de proteção já existente no animal contra essas doenças infecciosas. Também aumenta o risco de reações adversas em função da exposição repetida a substâncias exógenas.

Vacinas polivalentes com vírus vivos modificados que se multiplicam no hospedeiro provocam um desafio antigênico mais forte para o animal e devem montar uma resposta imune mais efetiva e sustentada (2, 3, 6). Entretanto, isso pode suprimir um animal imunocomprometido ou mesmo um hospedeiro saudável continuamente exposto a outros estímulos ambientais, assim como a predisposição genética pode promover resposta adversa a um desafio viral (1, 2, 7, 14, 16, 17). O filhote de gato ou cão recentemente desmamado que parte para um novo ambiente pode particularmente sofrer mais riscos. Além disso, enquanto a freqüência de vacinações é geralmente espaçada por duas a três semanas, alguns veterinários têm defendido a vacinação semanal em situações de estresse, uma prática que faz pouco sentido cientificamente ou medicamente (6).

Uma resposta imune aumentada após a vacinação é observada em cães com alergia inalatória (atopia) pré-existente a polens. (7). Além disso os crescentes problemas atuais de alergias e doenças imunológicas têm sido associados à introdução de vacinas vivas modificadas há mais de 20 anos (3). Embora outros fatores ambientais sem dúvida contribuam, a introdução desses antígenos vacinais e sua eliminação no ambiente pelos animais vacinados podem fornecer o insulto final que excede o limiar de tolerância imunológica de alguns indivíduos da população de pets. A evidência acumulada indica que os protocolos vacinais não devem mais ser considerados um programa adequado para todos os indivíduos (9).

Para esses casos especiais, alternativas apropriadas às práticas vacinais correntes incluem: realizar testes sorológicos para detectar número de anticorpos existentes, evitar vacinas desnecessárias e supervacinação; ter cuidado ao vacinar indivíduos doentes ou febris, e elaborar um protocolo vacinal mínimo específico e sob medida para cães de raças ou linhagens que conhecidamente apresentam um risco aumentado de reações adversas (6, 7, 18, 21).

Outras considerações incluem: iniciar mais tarde a série de vacinas (de filhote), por exemplo, aos 63 ou 70 dias de vida, quando o sistema imune está mais apto a lidar com o desafio antigênico; alertar o proprietário a prestar particular atenção ao comportamento e saúde do filhote após o segundo reforço vacinal e reforços subseqüentes, e evitar re-vacinação de indivíduos que já tiveram reação adversa significativa. Irmãos de ninhada de filhotes afetados (por reações vacinais) devem ser monitorados de perto após receberem vacinas adicionais na série de filhotes, pois eles também correm mais riscos.

Referências bibliográficas

1. Dodds WJ. Immune-mediated diseases of the blood. Adv Vet Sci Comp Med 1983; 27:163-196.

2. Phillips TR, Jensen JL, Rubino MJ, Yang WC, Schultz RD. Effects on vaccines on the canine immune system. Can J Vet Res 1989; 53: 154-160.

3. Tizard I. Risks associated with use of live vaccines. J Am Vet Med Assoc 1990; 196:1851-1858.

4. Duval D, Giger U. Vaccine-associated immune-mediated hemolytic anemia in the dog. J Vet Int Med 1996;10: 290-295.

5. Cohen AD, Shoenfeld Y. Vaccine-induced autoimmunity. J Autoimmunity 1996; 9: 699-703.

6. Schultz R. Current and future canine and feline vaccination programs. Vet Med 1998; 93:233-254.

7. Dodds WJ. More bumps on the vaccine road. Adv Vet Med 1999; 41: 715-732.

8. HogenEsch H, Azcona-Olivera J, Scott-Moncrieff C, Snyder PW, Glickman LT. Vaccine-induced autoimmunity in the dog. Adv Vet Med 1999; 41:733-744.

9. Dodds WJ. Vaccination protocols for dogs predisposed to vaccine reactions. J Am An Hosp Assoc 2001; 38: 1-4.

10. Scott-Moncrieff JC, Azcona-Olivera J, Glickman NW, Glickman LT, HogenEsch H. Evaluation of antithyroglobulin antibodies after routine vaccination in pet and research dogs. J Am Vet Med Assoc

2002; 221: 515-521.

11. Paul MA (chair) et al. Report of the AAHA Canine Vaccine Task Force: 2003 canine vaccine guidelines, recommendations, and supporting literature. AAHA, April 2003, 28 pp.

12. May C, Hammill J, Bennett, D. Chinese shar pei fever syndrome: A preliminary report. Vet Rec 1992;131: 586-587.

13. Scott-Moncrieff JC, Snyder PW, Glickman LT, Davis EL, Felsburg PJ. Systemic necrotizing vasculitis in nine young beagles. J Am Vet Med Assoc 1992; 201: 1553-1558.

14. Dodds WJ. Estimating disease prevalence with health surveys and genetic screening. Adv Vet Sci Comp Med 1995; 39: 29-96.

15. Wilbur LA, Evermann JF, Levings RL, Stoll LR, Starling DE, Spillers CA, Gustafson GA, McKeirnan

AJ. Abortion and death in pregnant bitches associated with a canine vaccine contaminated with blue tongue virus. J Am Vet Med Assoc 1994; 204:1762-1765.

16. Day MJ, Penhale WJ. Immune-mediated disease in the old English sheepdog. Res Vet Sci 1992; 53:87-92.

17. Dougherty SA, Center SA. Juvenile onset polyarthritis in Akitas. J Am Vet Med Assoc 1991; 198: 849-855.

18. Twark L, Dodds WJ. Clinical use of serum parvovirus and distemper virus antibody titers for determining revaccination strategies in healthy dogs. J Am Vet Med Assoc 2000; 217:1021-1024.

19. Flemming DD, Scott JF. The informed consent doctrine: what veterinarians should tell their clients. OJ Am Vet Med Assoc 224: 1436-1439, 2004.

20. Klingborg DJ, Hustead DR, Curry-Galvin E, et al. AVMA Council on Biologic and Therapeutic Agents’ report on cat and dog vaccines. J Am Vet Med Assoc 221: 1401-1407, 2002.

21. Schultz RD, Ford RB, Olsen J, Scott F. Titer testing and vaccination: a new look at traditional practices. Vet Med, 97: 1-13, 2002 (insert).

Bom apetite e uma lambida do Cachorro Verde!

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