Pessoalmente, acho naturalíssimo que um cão ou gato receba uma dieta à base de carnes, ossos e vísceras cruas. Os cães são geneticamente idênticos aos lobos e os bichanos são réplicas domésticas de seu parente mais próximo, o gato selvagem africano, e há milênios esses carnívoros prosperam na Natureza consumindo as carcaças de suas presas. Diferentemente de nós, que somos onívoros, o organismo dos cães e gatos é muitíssimo bem adaptado a uma dieta carnívora. Prova disso é que:

  • seus dentes são perfeitos para apreender e dilacerar carnes,
  • seu pH estomacal incrivelmente ácido destrói boa parte dos microorganismos patogênicos,
  • seus intestinos curtos permitem uma digestão rápida e eficiente de carnes, ossos e vísceras,
  • seu sistema metabólico é capaz de processar gordura e proteína de origem animal com destacada facilidade.

Essas são apenas algumas das particularidades anatômicas e fisiológicas que caracterizam nossos bichos de estimação como carnívoros.  Não são nenhuma novidade, na verdade.  Esses dados estão documentados em uma infinidade de livros, pesquisas e trabalhos.  E partindo do fato de que cães e gatos são carnívoros – ainda que os cães apresentem comportamento onívoro, diferentemente dos gatos – intuo que a alimentação mais apropriada para esses animais é uma dieta carnívora – ou ao menos predominantemente carnívora. Da mesma forma que uma dieta herbívora me parece a escolha ideal óbvia para vegetarianos como ruminantes e equinos.

Para muita gente, entretanto, cães e gatos devem automaticamente receber aquela que é uma dieta equilibrada para nós, humanos: uma alimentação onívora.  O que essas pessoas parecem desconsiderar é que os esses animais passaram milhares de anos subsistindo à base de presas com inegável sucesso, e que apenas há cerca de 30-40 anos passaram a receber uma dieta industrializada de composição onívora.

Dentre os argumentos frequentemente empregados pelos detratores da dieta natural – carnívora e crua – para cães e gatos domésticos, está a escassez de artigos científicos legitimando essas modalidades de alimentação. Discuti brevemente sobre essa questão neste post, no qual também publiquei o imperdível artigo “Bom Senso versus Medicina Baseada em Evidências”, escrito pelo médico Dr. Alexandre Feldman.

Bem, isto está mudando.

Apesar de ainda existir no meio acadêmico resistência e até censura a temas relacionados a dietas não convencionais para pets, a vontade dos consumidores tem se feito notar. A busca por opções mais naturais de alimentação para cães e gatos está em franca ascenção. No Brasil, onde a cultura do rawfeeding ainda é uma grande novidade, muitos proprietários e criadores de cães e gatos não se acomodaram com a falta de apoio de grande parte dos veterinários à Alimentação Natural: correram atrás dos (poucos) profissionais entendedores do assunto e educararam a si mesmos para preparar a dieta em casa.

Uma consequência super bacana desse crescente interesse pela Alimentação Natural, é que finalmente mais trabalhos científicos têm sido realizados, o que me traz a uma tese de doutorado publicada recentemente e que nos brindou com resultados surpreendentes.

A pesquisa, de nome “Alimentos convencionais versus naturais para cães adultos”, foi realizada pela zootecnista mestre em Nutrição Janine França, em 2009, sob orientação da médica-veterinária professora doutora em Nutrição Animal, Flávia Saad. Se tiver a oportunidade, leia o estudo na íntegra, clicando aqui.

A pesquisadora e sua equipe separaram 24 cães em grupos e ofereceram a cada grupo uma dieta diferente: ração seca Super Premium, ração úmida enlatada, mix de frango cru, mix de carne bovina cru, mix de frango cru aquecido no micro-ondas por três minutos e mix de carne bovina cru também aquecido no micro-ondas. Foram realizados exames diversos em cães de cada grupo, de forma a avaliar parâmetros como:

  • aspecto geral das fezes
  • pH da urina
  • uréia e creatinina do sangue
  • triglicerídeos e colesterol
  • contaminação das fezes por salmonela, clostridium e coliformes fecais
  • contaminação de amostras de cada tipo de dieta com salmonela, clostridium e coliformes fecais
  • digestibilidade de cada dieta

Os resultados foram então comparados, o que levou a conclusões inesperadas e bastante interessantes.  Abaixo,  cito as informações e os pontos de comparação que mais me chamaram a atenção:

Contaminação das dietas

De acordo com vários autores citados na pesquisa, salmonelas são bactérias habitantes naturais do trato intestinal de animais domésticos e selvagens. Elas podem ser transmitidas de várias formas: contato com fezes e urina contaminadas, ingestão de água não-clorada, contato com lixo, contato com répteis (por exemplo, lagartixas), aves e roedores, coprofagia (ingestão de fezes), além, é claro, do consumo de carnes e ossos crus.

Ou seja, há grandes chances de que a maioria dos cães apresente salmonelas no intestino, comendo carnes cruas ou não. Isso não significa, entretanto, que esses cães irão desenvolver os sintomas clínicos da salmonelose.

A salmonela foi detectada em amostras do mix de carne bovina cru, no mix de frango cru, e, para minha surpresa,  a bactéria estava presente até no mix de frango e no mix de carne bovina submetidos a aquecimento por três minutos no micro-ondas! Aparentemente, é necessária uma temperatura acima de 80 graus centígrados para matar a bactéria. Isso me fez pensar que muitos pets – e pessoas! – sem saber consomem dietas mal cozidas e, portanto, potencialmente contaminadas com salmonela.

A ração seca empregada na pesquisa estava isenta de salmonela, apesar dessa bactéria já ter sido encontrada em rações secas. Mas os exames detectaram salmonela na ração úmida enlatada! Isso me surpreendeu bastante! Outro dado incrivelmente intrigante, que eu já vira em outra pesquisa, é que todos os cães testados apresentaram salmonela nas fezes! Mesmo os que foram alimentados com rações secas isentas desta bactéria. Isso porque, conforme expliquei anteriormente, a salmonela é uma habitante natural dos intestinos dos animais, podendo ser adquirida de diversas formas além da ingestão de carnes cruas.

Em relação a presença de bactérias Clostrídio sulfito redutor e coliformes fecais, todas as amostras de dietas – os mix crus, os mix aquecidos no micro-ondas e as rações seca e úmida – deram resultado positivo! Todas! Isso indica que uma dieta estéril é algo praticamente utópico.

Triglicerídeos no sangue

Foi colhida uma amostra do sangue de cães de todos os grupos e os triglicerídeos (gorduras circulantes no sangue) foram um dos parâmetros avaliados.  A ração seca de qualidade Super Premium que foi oferecida a um grupo de cães durante o experimento apresentava um mínimo de 18,5% de gordura, enquanto que os mix de carne bovina e de frango crus, apresentavam, respectivamente, teores mínimos de 37,89% e 42,9% de gordura. Ou seja, mais que o dobro da gordura contida na ração seca, certo? Agora, veja só que interessante: os cães que comeram os mix de frango crus e de carne bovina crus apresentaram valores de triglicerídeos de 35,50 e 47,50 respectivamente; enquanto que os cães alimentados com a ração seca apresentaram 143,25 de triglicerídeos!

Isso pode ser explicado, de acordo com a autora da tese, em função do alto teor de amido (cereais) das rações secas. Quando um grande fluxo de glicose oriundo da “quebra” desse amido chega ao fígado, ele rapidamente os converte em ácidos graxos e os armazena sob a forma de gordura. Em contrapartida, as dietas naturais costumam conter menos amido, uma vez que cães e gatos não apresentam requerimentos conhecidos de carboidrato em suas dietas.

Durante um curso sobre Nutrição de Pets da semana acadêmica da faculdade de Medicina Veterinária da USP, mais de um palestrante inocentou e valorizou a gordura de origem animal, afirmando se tratar de um nutriente nobre, metabolicamente neutro, importante para a reparação dos tecidos mediante injúrias e de altíssima digestibilidade. Acrescentaram ainda que, sendo carnívoros, cães e gatos saudáveis toleram muito bem uma dieta de moderado a elevado teor lipídico, sem prejuízo algum à saúde.

Outros pontos interessantes da pesquisa:

  • Os valores de colesterol também foram mais altos em cães que receberam rações seca e úmida (196,50 e 212,75, respectivamente), em relação aos valores de colesterol dos grupos alimentados com mix de frango cru (171,75)  e mix de carne bovina cru (142,75).
  • As fezes dos cães alimentados com mix de frango cru apresentaram-se ainda mais sequinhas do que as dos cães alimentados com mix de carne bovina cru.  O mix de frango aquecido resultou em fezes ressecadas.
  • Em relação ao coeficiente de digestibilidade aparente, as dietas naturais cruas mostraram-se tão ou mais digestíveis que as rações seca e úmida nos quesitos digestibilidade aparente da proteína, digestibilidade da gordura e digestibilidade da energia bruta, com mais de 91% de digestibilidade aparente nesses parâmetros.
  • A gordura do mix de frango cru, aliás, se revelou extremamente digestível, com mais de 96,16% de digestibilidade aparente.

Vale a pena conferir todo o magnífico trabalho realizado pela Dra. Janine!

Bom apetite e uma lambida do Cachorro Verde!

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